Um livro pequeno é sempre de desconfiar!


Quando se começa a ler o "Caruncho" de Layla Martínez, um livro pequenino, que aparenta ser rápido, ficamos moídas com a escrita dela. Nenhuma frase é leve, ou simples, umas vezes o conteúdo é duro, e quando não é, a autora baralha-nos com a pontuação ou a falta dela, como se nos estivesse a enfeitiçar com um "amarranço" de nós e magia negra. Foi difícil, negro, mas valeu a pena, porque o nosso objetivo é expormos o nosso gosto pela leitura a livros que normalmente não compraríamos, ou se o fizéssemos por engano, não passaríamos da primeira página. O que Layla Martínez faz é extraordinariamente bem feito, porque nos transforma em pequenos insetos perdidos um pedaço de madeira, confusos com a direção, mas ávidos de carcomer e resistir, face a uma história horrível, com protagonistas detestáveis, sem finais felizes. Vilões emparedados, mortos em agonia, maldições, transes, ódio, cuspidelas de vingança, numa Espanha rural onde a vida de quatro mulheres de uma família pobre se corrói em diferentes gerações, agravando-se até ao presente que em vez de se tornar mais leve, pela experiência do passado, culmina no crime absurdo contra a inocência de uma criança. O espaço que Layla escolhe para a sua história de horror é uma casa, onde todas, bisavó, avó, mãe e neta vivem, amaldiçoadas pelo bisavô quando a construiu com dinheiro extraído do sofrimento de outras mulheres, prostituídas para o sustentar. Numa época de miséria e grandes diferenças sociais, o grande vilão do livro ousa não se submeter aos ricos da aldeia para sobreviver, mas cai na mesma armadilha do dinheiro fácil, usando o mais fraco da cadeia dos pobres para se sustentar, as mulheres, e assim dita o trágico futuro kármico de uma família. Nenhuma das suas sobreviventes femininas consegue escapar ao caruncho que ele insere na casa, e isso corrói as personagens e o leitor. Se gostam do estilo fantástico, este é um belo livro cheio de momentos arrepiantes, aconselhamos a sua leitura. Se não gostam de horror, leiam na mesma, devagar, tentando não julgar em demasia estas mulheres, que apodrecem com vários carunchos a que não conseguem fugir, social, cultural e falta de afetos, mas tentar encontrar nelas a empatia a que nunca tiveram direito. 

Para as férias, escolhemos outra autora feminina, mas de uma geração anterior à de Layla, a Magda Szabó, e o seu livro "A porta".




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