O livro branco e a pausa cromática que talvez todos precisemos

 



Iniciámos as tertúlias de 2025 ontem, numa tarde de domingo meio chocha, mas que inesperadamente se tornou solarenga e quente. A preguiça que Janeiro nos trouxe, com toda a agitação de dezembro ainda a pesar no corpo, andou a adiar a nossa reunião, mas dos fracos não reza a história, e lá fomos visitar a sala de convívio da Pousada da Juventude da Lousã, carregadas de livros e muitas ideias para partilhar. A obra que tínhamos escolhido para ler, "O livro branco" da mais recente prémio Nobel da Literatura, Han Kang, não nos entusiasmou por aí além, mas a culpa foi repartida por nós, que o escolhemos por ser pequeno... Nem todas as obras de um escritor são dignas de aplausos, algumas são só banais, ou pouco significativas, e quem leu outros títulos da autora pôde defender a sua honra de premiada, pois um Nobel de Literatura premeia um trabalho contínuo e não livros em particular. Han Kang mostra-nos um lado muito pessoal e pouco apelativo neste "livro branco", uma faceta complexada, traumatizada e um pouco resignada com a vida, o que nos irrita, pois temos tendência a admirar mulheres fortes, proativas, que tenham uma voz que incomoda, e Han Kang limita-se a sorrir "em branco" (o equivalente dos coreanos ao nosso sorriso amarelo). Uma tragédia familiar anterior ao seu nascimento molda-lhe a existência e Han Kang não parece superar a mesma, ou querer fazê-lo, o que nos perturba. Num tempo de tanta guerra e combate, ser neutro é incomodativo, e se nos encolhemos na nossa bolha pessoal, com tanto a acontecer lá fora, ficamos invariavelmente do lado da força. Han Kang representa nesta obra esse egoísmo calado, essa inação dos medrosos, incapazes de largar os seus fantasmas em detrimento do outro. Num mundo global e demasiado rápido não temos sequer o direito a lamber as nossas chagas, em autocomiseração, somos lançados para os debates das televisões, dos cafés, da hora de jantar, numa guerra perpétua e frenética com protagonistas narcisistas, loucos e assustadores a ditarem as sentenças mundiais. Han Kang sorri em branco, enquanto observa cubos de açúcar, perfeitamente cortados e de uma brancura imaculada, enquanto pensa na irmã que morreu no parto e que na sua cabeça, ela veio substituir, ignorando Trumps, Putins, Xi Jinpings ou Kim Jong Uns, levando-nos momentaneamente a um passado calmo e nostálgico, quando também nós olhávamos os cubos de açúcar, iguaria rara nas nossas casas, que muitas vezes nos era trazida por familiares que viviam em países ricos, onde não se adoçava a vida às colheradas, mas com obras de arte cubistas que invejávamos. Tempos em que parecíamos viver "em branco", sem o barulho atual, onde um chá e umas fatias de bolo oferecidas inesperadamente nos ficavam mais na memória que as contínuas loucuras dos chefes de Estado das grandes potências mundiais vão gritando.

Para a próxima tertúlia escolhemos a obra "A forasteira" de Olga Merino.




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