In Vino Veritas
Ontem estivemos reunidas numa grande roda, com quase todo o grupo presente, o que é sempre muito divertido, pois toda a gente sabe que uma Tertúlia só se alcança, na verdadeira acepção da palavra, quando há muitas vozes e energias juntas. As mais faladoras ganham embalo para os seus discursos e opiniões, as mais caladas apreciam muitas opiniões diferentes e quem tem dom para o humor, diverte-se e diverte. Muita dessa energia foi gasta a analisar o ator Pedro Lamares, que esteve na Lousã há pouco tempo a dizer poemas, para regozijo de muitas e muitos. Quase todas fomos assistir ao seu espetáculo, que consiste numa cadeira e mesa altas, um microfone, uns livros e uma garrafa de vinho tinto, e claro, um ator que mistura Jorge de Sena, com Pessoa e muitos outros, e nos faz realmente conseguir apreciar alguns poemas que de outra forma, se fossem lidos por nós, não seriam a mesma coisa. Ele consegue de facto dar uma lição de Poesia, apenas porque lê, enquanto ator, em voz alta, e enerva-se, grita, sussurra, pisca o olho, obrigando o público a uma curta mas intensa relação humana durante aquelas duas horas. Foi por isso bastante positiva a nossa avaliação dessa noite de cultura, só não achamos, como ele, que o nosso Hino Nacional deva ser alterado ou higienizado porque é feio falar em armas e canhões. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, e há problemas nacionais mais prementes na atualidade.
Relativamente ao livro do mês, se pudéssemos adjetivar os livros que lemos, se fosse obrigatório catalogá-los, diríamos que "Numa casca de noz", de Ian MacEwan, é divertidamente triste. Parte de uma ideia original e "bem esgalhada" (como costuma dizer a nossa guru literária), que inventa um narrador que é um feto na barriga da mãe, que nos vai contando a história da família, as tramas entre eles, faz julgamentos de moral de tudo o que vive através do útero da mãe, desde o que come, à desarrumação da casa, ao comportamento sexual da progenitora, até ao vinho que o vai embriagando, com o preciosismo do nome, casta e ano das garrafas que ingere involuntariamente. Não é um filho desejado, amado, e isso entristece-nos, porque na realidade há talvez mais fetos neste mundo a crescer dentro de barrigas com a mesma história, só não são tão vividos e preparados para o futuro como este, e quando nascem ainda vêm a acreditar que uma Mãe ama sempre o seu bebé e um Pai os ama aos dois. Ian é tão imaginativo como cruel neste livro, e só não ficamos deprimidas porque o futuro bebé aprecia mesmo um bom vinho!
Para a próxima tertúlia escolhemos a obra "Caruncho", de Layla Martínez.
Comentários
Enviar um comentário