Sete anos, uma ninfomaníaca, bolo de noz e maçã e uma mesa pequena demais

 



É verdade, já se passaram sete anos, desde que nos juntámos a primeira vez, no dia 26 de março de 2017. Iniciámos as nossas tertúlias com a polémica do livro "impróprio" para o primeiro ciclo, "O nosso reino", de Valter Hugo Mãe. Na altura houve uma grande controvérsia, movida por alguns encarregados de educação que se insurgiram com o conteúdo de duas ou três linhas dentro de uma obra proposta no Plano Nacional de Leitura. Um dos personagens dizia coisas que os seus filhos ainda não tinham ouvido, e seria muito complicado para aqueles pais explicar aos seus rebentos o vernáculo utilizado... se algum dia os filhos se dessem ao trabalho de ler o livro em causa, o que nós duvidamos, já que a maioria das crianças nem as obras obrigatórias da disciplina de Português lê... Polémicas à parte, o livro é muito bom e foi o ponto de partida para os nossos encontros mais ou menos mensais, onde falamos de muita coisa, bebemos um chá e por vezes, deliciamo-nos com um ou outro bolo ou biscoito. Não conseguimos contabilizar bem quantas obras já propusemos, mas talvez o número esteja entre as 70 e 80, já que houve alguns meses em que adiámos as tertúlias, e em agosto nunca nos juntamos. Escritores portugueses, brasileiros, ingleses, suecos, israelitas, franceses, checos, espanhóis, latino-americanos, norte-americanos, angolanos, de tantas nacionalidades diferentes e das quais já não nos recordamos, têm sido a nossa companhia no domingo da tertúlia. Em março deste ano decidimos apostar na escritora Leila Slimani, franco-marroquina, de 42 anos, que tem ganho prémios e destaque com o seu trabalho literário. Algumas de nós já conhecia um ou outro título, e na realidade só escolhemos o livro "No Jardim do Ogre" porque era, entre as hipóteses, o mais pequeno, o que facilita os empréstimos e a circulação dos livros entre nós, para que todas consigam ler durante o mês. Nunca imaginámos que nos iríamos deparar com uma ninfomaníaca casada com um homem vulgar, manso, ligeiramente assexuado e confortável com o dia a dia monótono e previsível de uma classe média alta francesa. Uma relação unilateralmente bem sucedida, onde a mulher carrega um instinto sexual autodestrutivo, uma obsessão pelo perigo, um desprezo familiar e maternal que nos custa ligeiramente a aceitar, porque o livro apresenta-a de forma dura, sem preâmbulos ou atenuantes que nos façam compreender o porquê de tudo aquilo, e o marido, médico, devotado à mulher ao filho pequeno, que sonha em deixar o emprego exaustivo do hospital e ir assentar num local fora de Paris, nos arredores calmos, trabalhar numa clínica, para conseguir passar mais tempo com a família. Uma visão diferente do que habitualmente lemos ou é abordado nas temáticas dos problemas sexuais e da violência física, normalmente mais associado a homens. Leila Slimani explora o tema do ponto de vista feminino, com frases duras, sem metáforas ou simbolismos, apresentando uma mulher cruel, egoísta, determinada e agressiva, que não se inibe de satisfazer todos os instintos e desejos que lhe vão surgindo, de forma doentia e sem qualquer bom senso. Uma série de circunstâncias que naturalmente só podem dar errado, e que mais tarde ou mais cedo destroem a aparente paz desta família. Adèle não sabe viver sem Richard, ele normaliza-a, mas é movida por impulsos que a dominam, traindo-o constantemente, até perder o controlo da vida dupla, como era esperado. O marido descobre, revolta-se, mas estranhamente não a liberta, nem abandona, ficando preso à sua própria dependência emocional, "obrigando" Adèle a continuar casada, viver na casa dos seus sonhos, na província, como esposa modelo, sem que o segredo dos dois seja revelado a mais ninguém. Uma bomba relógio que nos é previsível de explodir, assim que a mulher viaja a primeira vez sozinha, sem Richard. O livro não fecha o capítulo ao marido desgostoso e perdido, e não nos mata a curiosidade do que aconteceu à mulher, deixando-nos uma angústia de incerteza e obrigando-nos a um exercício de imaginação. O final da história fica a nosso cargo, e como não entendemos Adèle, esperamos que ela encontre um bom psiquiatra que a ajude, antes que algum encontro sexual mais perigoso a mate, e quanto ao marido, que encare a realidade, aceite que amava uma pessoa que não existia e consiga seguir adiante sem cair no alcoolismo, ou noutro escape. Para nós, felizmente mais brandas e sem obsessões sexuais autodestrutivas, bastou-nos ontem uma fatia do Bolo de Noz e Maçã e um chá quentinho para alegrar o nosso fim de domingo! A alegria dos prazeres simples e banais, com dezenas de livros que nos fizeram sonhar durante o mês, todos bem dispostos numa mesa pequena demais.

Para leitura de abril escolhemos: 



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