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Sentir mais, precisa-se!

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 No interior do Brasil nasce um amor proibido entre dois rapazes, consumado em segredo até à inevitável descoberta que despoleta toda uma série de tragédias, ruturas familiares, e leva o personagem principal, Raimundo, a uma viagem solitária marcada pela vergonha, abandono, enquanto se faz pela vida, pelo ganha pão, longe da terra natal, onde deixa tudo para trás, trazendo apenas com ele a roupa do corpo e uma carta de Cícero, a sua paixão. Numa linguagem simples, rudimentar, que lemos com sotaque, acompanhamos a descrição dolorosa dos episódios da vida de um homossexual, que nunca se despediu de quem amava, nem soube que destino o mesmo tivera, pois por muito que quisesse descobrir, Raimundo era analfabeto e a carta manteve-se fechada no seu bolso durante décadas. A ironia da sua tragédia é aumentada neste pormenor, que o autor explora de forma brilhante, levando Raimundo a uma escola de adultos, já em avançada idade, para finalmente aprender a ler e escrever. Num tempo de retroce...

A Morte e a Vida, uma ao lado da outra

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  Ontem estivemos reunidas para mais uma tertúlia do nosso resistente grupo de leitura e de conversa, sem chá, mas com um ambiente menos desabitado que normalmente se sente na Pousada da Juventude da Lousã. O ar condicionado estava ligado, a televisão da sala de convívio passava música, e havia cheiro a comida ao lume. Uma família vinda de Angola esperava o domingo passar, pai, mãe e duas crianças pequenas. Um rapazinho com cerca de 4 anos rondava-nos, a pedir atenção, e confesso que os seus olhos grandes e vivos me roubaram quase toda a atenção que deveria ter dado à reunião. O livro do mês escolhido para debatermos contrastava com a leveza que uma criança pequena traz a uma sala só com adultos, o tema do cancro, como diz o autor a dada altura, é logo associado a morte, e um menino ainda de dentes de leite obriga-nos a olhar a vida no sentido contrário, que ainda tem muitas décadas por desvendar. A maioria que terminou a leitura proposta adorou a obra "A Montanha", do José L...

Famílias de acolhimento de livros

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 Ontem voltámos a reunir o grupo mais ou menos informal de leitoras assumidas, e que falta já nos fazia este momento de conversa, mesmo sem o chá que aquece os domingos de outono. Nem sempre as condições são ideais, e o clima começa a boicotar as saídas de casa ao fim-de-semana, mas a verdade é que tínhamos muitos livros cruzados, emprestados, perdidos, esquecidos, e antes que petrificassem em casa alheia, era essencial que o grupo se juntasse e colocasse alguma ordem na dinâmica pós férias e eleições autárquicas. O ser humano não foi feito para estar sem objetivos, ou projetos, e a procrastinação é a inimiga da sensação de realização, aliada da frustração e do desânimo. Na leitura então, esta regra é ainda mais correta e verdadeira, porque no meio das vidas agitadas e cheias de desafios, ler fica no fundo das prioridades, e quando nos apercebemos, passámos um serão a ver vídeos palermas, em estado de hipnose, com vários livros mesmo ali ao lado. O livro escolhido na última sessão ...

Forasteiros debaixo de holofotes

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  Esta tertúlia foi adiada tantas vezes, por inúmeros motivos e percalços, que já quase não nos lembrávamos do livro do mês de março, "A Forasteira", da autora Olga Merino. Estivemos a recordar e a puxar pela memória, o que nos levou invariavelmente a conversas labirínticas sobre forasteiros vindos para as aldeias da Serra da Lousã há algumas décadas, o que na altura configurava quase como loucura e enchia a população de perguntas e receios. O que levaria alemães e outros a ir viver para o meio do nada? O que agora é visto como turismo de bom gosto e ganha orçamento público e visibilidade, era só admirado com suspeita há 20 e muitos anos, pois a nossa racionalidade e tendência para o preconceito fazia a narrativa perfeita para que entendêssemos o fenómeno. Com luz, água canalizada, esgotos, telefones, todos os serviço à mão de semear cá em baixo, na vila, só poderiam ser loucos os que se isolavam no meio da Serra, onde tudo seria mais difícil e trabalhoso. Só compreendíamos a...

O livro branco e a pausa cromática que talvez todos precisemos

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  Iniciámos as tertúlias de 2025 ontem, numa tarde de domingo meio chocha, mas que inesperadamente se tornou solarenga e quente. A preguiça que Janeiro nos trouxe, com toda a agitação de dezembro ainda a pesar no corpo, andou a adiar a nossa reunião, mas dos fracos não reza a história, e lá fomos visitar a sala de convívio da Pousada da Juventude da Lousã, carregadas de livros e muitas ideias para partilhar. A obra que tínhamos escolhido para ler, "O livro branco" da mais recente prémio Nobel da Literatura, Han Kang, não nos entusiasmou por aí além, mas a culpa foi repartida por nós, que o escolhemos por ser pequeno... Nem todas as obras de um escritor são dignas de aplausos, algumas são só banais, ou pouco significativas, e quem leu outros títulos da autora pôde defender a sua honra de premiada, pois um Nobel de Literatura premeia um trabalho contínuo e não livros em particular. Han Kang mostra-nos um lado muito pessoal e pouco apelativo neste "livro branco", uma f...

A aula de história e a parede

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 No passado sábado estivemos na apresentação do livro "A Lousã de Ontem, Retratos de Alma", da lousanense Filomena Martins, que decorreu no auditório da Biblioteca Municipal, com uma casa cheia de amigos, conhecidos, curiosos, atentos à ex-professora que nos deu uma lição de história popular lousanense, onde não faltou a música, com o grande Ramiro na voz e viola, boa disposição e no final, um lanche. Ficámos a conhecer um pouco mais de algumas personalidades da região, eventos marcantes de uma época que, pelas suas dificuldades, nos parece tão longínqua, mas ainda testemunhada por parte da plateia, cantámos e acompanhámos com palmas os poemas dedicados à Lousã e outras memórias musicais que se trautearam. Uma tarde que nos encheu o coração, lousanenses de nascimento ou "adotados". No final do evento, como conseguimos juntar o nosso grupo de leitura, falámos um pouco sobre a obra "a parede", de Marlen Haushofer, que foi consensualmente apreciada (por quem ...

A porta, o Museu e uma livraria café junto ao Lis

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 Viver sem telemóvel e o acesso ao mundo digital em tempo real é hoje em dia tão difícil que já inspira eventos temáticos para nos relembrarmos de como era a vida há 20 anos atrás. Não foi assim há tanto tempo que ainda usávamos o telefone fixo, para sermos honestos, a maioria de nós não cresceu com este aparelho no bolso, e só estamos viciados nele porque se tornou num conjunto de vários acessórios num só: telefone, relógio, correio eletrónico, agenda, etc. É prático, leve, pequeno e ainda possibilita distrair a cabeça a "rebentar bolhinhas coloridas" enquanto entramos em modo zen, alheados ao que nos rodeia. Superficialmente é só vantagens, mas talvez estejamos a cair nas teias do mundo demasiado facilitado e rápido. Podemos responder a um email importante enquanto esperamos no meio do trânsito, mas porquê levar o trabalho para aqueles momentos fora do horário estipulado e pago para o fazer? Não poupamos tempo, apenas o usamos de forma errada, pois se fizéssemos crochet ou ...

Um livro pequeno é sempre de desconfiar!

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Quando se começa a ler o "Caruncho" de Layla Martínez, um livro pequenino, que aparenta ser rápido, ficamos moídas com a escrita dela. Nenhuma frase é leve, ou simples, umas vezes o conteúdo é duro, e quando não é, a autora baralha-nos com a pontuação ou a falta dela, como se nos estivesse a enfeitiçar com um "amarranço" de nós e magia negra. Foi difícil, negro, mas valeu a pena, porque o nosso objetivo é expormos o nosso gosto pela leitura a livros que normalmente não compraríamos, ou se o fizéssemos por engano, não passaríamos da primeira página. O que Layla Martínez faz é extraordinariamente bem feito, porque nos transforma em pequenos insetos perdidos um pedaço de madeira, confusos com a direção, mas ávidos de carcomer e resistir, face a uma história horrível, com protagonistas detestáveis, sem finais felizes. Vilões emparedados, mortos em agonia, maldições, transes, ódio, cuspidelas de vingança, numa Espanha rural onde a vida de quatro mulheres de uma família p...

In Vino Veritas

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Ontem estivemos reunidas numa grande roda, com quase todo o grupo presente, o que é sempre muito divertido, pois toda a gente sabe que uma Tertúlia só se alcança, na verdadeira acepção da palavra, quando há muitas vozes e energias juntas. As mais faladoras ganham embalo para os seus discursos e opiniões, as mais caladas apreciam muitas opiniões diferentes e quem tem dom para o humor, diverte-se e diverte. Muita dessa energia foi gasta a analisar o ator Pedro Lamares, que esteve na Lousã há pouco tempo a dizer poemas, para regozijo de muitas e muitos. Quase todas fomos assistir ao seu espetáculo, que consiste numa cadeira e mesa altas, um microfone, uns livros e uma garrafa de vinho tinto, e claro, um ator que mistura Jorge de Sena, com Pessoa e muitos outros, e nos faz realmente conseguir apreciar alguns poemas que de outra forma, se fossem lidos por nós, não seriam a mesma coisa. Ele consegue de facto dar uma lição de Poesia, apenas porque lê, enquanto ator, em voz alta, e enerva-se, ...

Sete anos, uma ninfomaníaca, bolo de noz e maçã e uma mesa pequena demais

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  É verdade, já se passaram sete anos, desde que nos juntámos a primeira vez, no dia 26 de março de 2017. Iniciámos as nossas tertúlias com a polémica do livro "impróprio" para o primeiro ciclo, "O nosso reino", de Valter Hugo Mãe. Na altura houve uma grande controvérsia, movida por alguns encarregados de educação que se insurgiram com o conteúdo de duas ou três linhas dentro de uma obra proposta no Plano Nacional de Leitura. Um dos personagens dizia coisas que os seus filhos ainda não tinham ouvido, e seria muito complicado para aqueles pais explicar aos seus rebentos o vernáculo utilizado... se algum dia os filhos se dessem ao trabalho de ler o livro em causa, o que nós duvidamos, já que a maioria das crianças nem as obras obrigatórias da disciplina de Português lê... Polémicas à parte, o livro é muito bom e foi o ponto de partida para os nossos encontros mais ou menos mensais, onde falamos de muita coisa, bebemos um chá e por vezes, deliciamo-nos com um ou outro ...

A Luz e a Escuridão

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 Não há outra forma de conhecer a Luz, senão com Escuridão. São dois estados indissociáveis, como a tristeza e a alegria, a dor e o prazer. Estar sempre num, é esquecer o outro, que dá o sentido ao primeiro, e o engole. Saltar de um para o outro, sem viver nenhum durante um tempo, é nunca chegar a ter tempo de os experimentar, de os compreender, o que nos torna inexperientes. O segredo estará no equilíbrio, talvez, na forma como nos permitimos permanecer na escuridão, para percebermos a Luz, e vice-versa. No livro do mês, "Deus na Escuridão", este exercício é feito de forma poética, como o Valter Hugo Mãe tão bem escreve. Uma lição de Humanidade, de completa aceitação da escuridão que é uma vida e como ela pode ser tornada em luz, através do Amor. Fraternal, maternal, simples e genuíno, porque é manifestado por pessoas simples, genuínas, que nos aquecem o coração. A simplicidade com que todos nascemos, somos carregados no colo, e que se perde muitas vezes pelo caminho, princi...

A Bíblia que todos temos numa prateleira

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  O livro deste mês é um daqueles achados que dificilmente nos chega às mãos, por ser de um autor pouco traduzido para o português, para nós quase desconhecido. Temos a sorte de, de vez em quando, sermos inspiradas pelo guru literário de uma das fundadoras deste grupo de leitura, que desencanta estas pérolas, sabe-se lá de onde. Não é uma obra extensa, ou maçuda, mas exige à partida algum trabalho de casa, para ser completamente compreendida. Ou isso, ou um grande conhecimento histórico político da Europa, porque só nos fará sentido a personagem se a conseguirmos contextualizar. O autor  Péter Nádas, apresenta-nos um rapaz, que nos parece a entrar na puberdade, húngaro, que vive nos anos 50 com a família: pai, mãe, avó e avô. Começa a história com um acontecimento brutal, que nos deixa ligeiramente apreensivas quanto à saúde mental do garoto, e continua com um desencadear de factos que nos são particularmente incómodos e estranhos. Gyurika é cruel, impulsivo, vingativo, medros...

Nada é mais urgente que uma bexiga a rebentar

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A escolha do livro para leitura em Novembro, "Sete anos bons", foi intencionalmente feita pela atualidade dos acontecimentos no Médio Oriente, nomeadamente o conflito entre a Palestina e Israel. O autor israelita Etgar Keret, contemporâneo e nascido e criado em Israel, mostrou-nos um pouco da sua realidade enquanto judeu moderado, pai e marido, escritor de profissão, que utiliza os primeiros sete anos da vida do seu filho para nos contextualizar a sua vida, a visão que tem do seu mundo, que nos parece fechado numa redoma muito própria, uma realidade quase distópica para nós, que só vemos as guerras pela televisão e vivemos uma religião pagã, não perdemos muito tempo a pensar nas questões bíblicas profundas. Quando Etgar escreveu este livro não tinha ainda sido declarada guerra de Israel contra o Hamas, mas havia mísseis esporádicos que param o dia a dia da população em Telavive, que cancelam aulas, que obrigam todos a fechar-se como os ouriços enquanto o som de estrondo não p...

O Alzheimer da Humanidade

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  O domingo é um dia agridoce, que dá com uma mão e tira com a outra. Deixa-nos sentar no sofá e fazer ronha, mas toca-nos no ombro quando estamos prestes a passar pelas brasas e sussurra-nos ao ouvido: "amanhã é segunda!" Se não tivermos cuidado, caímos num estado de ansiedade e nostalgias profundas, sem conseguirmos aproveitar a pausa semanal, só preocupados com o som do despertador do dia seguinte, que tocará sempre cedo demais e tirar-nos-á da cama, sem piedade. Mas quando ao domingo calha a nossa tertúlia, a tarde fica mais bonita e a promessa do início da semana torna-se mais leve. Pelo menos, é assim que me sinto, tomando a liberdade de falar por todas. Chegamos com os sacos carregados de livros, dispomos tudo na mesinha e antes de atacar o livro do mês com elogios ou lamentos, falamos do que andámos a ler paralelamente, do que encontrámos lá nas nossas prateleiras, do que nos sugeriram aqui e ali, certas de que o público em causa tem o mesmo interesse. E por falar em ...

Um Outono a impor-se

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  Ontem fomos "tertuliar" sob um Outono que parece querer impor-se ao Verão à força. Chuvadas batidas a vento que molham tudo e todos, a mostrar ao calor excessivo dos últimos tempos quem manda. Foi assim, a correr do carro para a Pousada da Juventude, que lá nos conseguimos juntar para falar sobre Milan Kundera e a sua "Valsa do Adeus". Todas adorámos o livro, e achamos que é impossível não se gostar de uma boa valsa, liderada por um homem que conhece os compassos e nos vai alimentando o ritmo, fazendo-nos rir com o seu humor tão peculiar, por vezes disparatado, outras vezes inteligente, mostrando-nos como um intelectual pode ser dançarino. Uma obra indiscutivelmente bem conseguida, e que revela o Kundera mais descontraído mas ao mesmo tempo enérgico, que se vai divertindo ao longo da escrita e que no final deixa escapar o seu lado mais impaciente e termina a dança repentinamente, com uma conclusão da trama mais apressada que o restante livro. Estaria ele farto de ...

A playlist da "gorda"

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 Ontem estivemos novamente reunidas na Pousada da Juventude da Lousã para mais uma hora e pouco de conversa fiada e sugestões de leitura, com a banda sonora da playlist sugerida no livro do mês, "A Gorda", da escritora portuguesa Isabela Figueiredo. Uma mistura de estilos e sonoridades que nos levaram desde Nina Simone a Xutos e Pontapés, sem que isso nos parecesse estranho ou descabido, uma linha condutora para as nossas divagações, ora sérias ora disparatadas. No livro sugerido para Julho houve um consenso quase generalizado, de obra fácil e descomprometida, mas que não surpreendeu a maioria que leu. A história ligeiramente autobiográfica de uma mulher que sendo gorda, faz uma operação para reduzir o estômago, emagrece 40 quilos, mas descobre que o ser-se gorda é para sempre, principalmente na sua cabeça. Perde bastante massa corporal, experiencia uma mudança drástica fisicamente, mas a cabeça fica lá, nas roupas largas e excessivamente grandes, nas frustrações e complexos ...

Se isto é um homem, queremos ser mulher

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  O livro que tínhamos proposto para leitura durante o mês de Maio foi um daqueles difíceis e incómodos, que nenhuma de nós conseguiu ler de uma assentada só. "Se isto é um homem" do Primo Levi, é bastante conhecido pela densidade do tema, um relato na primeira pessoa de memórias vividas num campo de extermínio nazi na Alemanha, e consegue sempre chocar, por muito que os anos passem. Íamos lendo umas páginas, parávamos para respirar e voltar à nossa feliz realidade, porque é difícil imaginar que o que lemos aconteceu, e não foi um produto da criatividade do autor. É fisicamente perturbador deixarmo-nos levar pela narrativa de um homem que vai contando o que viveu desde que foi apanhado pela polícia que caçava etnias, raças, nacionalidades, deficientes, e toda uma lista de indesejáveis que um Sistema político decidiu definir como alvos a abater. Pessoas que sem qualquer possibilidade de fuga ou julgamento foram colocadas em vagões de comboio e despejadas num local que para nós...

O Castelo onde mora cada um de nós

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             Este domingo encerrámos o mês de abril com mais uma tertúlia na Pousada da Juventude da Lousã e um livro dedicado à fantasia de um dos locais turísticos mais misteriosos da nossa vila, o Castelo da Lousã. Visitado por muitos curiosos, é um postal da nossa terra, que nos transporta para grandes exercícios de imaginação, quando o observamos. O local onde foi erguido não se assemelha a nenhum outro dos estratégicos pontos onde normalmente construíam castelos, que serviam de defesa de um território, e de onde se podia ver com distância os possíveis inimigos de outros tempos de conquistas e reconquistas. O Castelo da Lousã não se distingue do centro da vila, temos que entrar pelos caminhos circulares da serra para o encontrar, e obriga-nos a deduzir que quando foi pensado, teria sido para ficar secreto a quem passasse pela região. Esta particularidade é a sua característica mais importante, o ser escondido. Ninguém esconde uma torre para preven...

Meia dúzia de anos e muitas tertúlias

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  Ontem, dia 26 de março, celebrámos os seis anos de existência deste nosso grupo informal de leitoras, que desde 2017 se junta uma vez por mês para beber um chá, um café e conversar sobre os livros que se vão lendo, tendo uma obra proposta mensalmente, que serve basicamente de desculpa para o efeito. O nosso objetivo, quando decidimos formar este grupo, era só ter umas horas por mês para nos juntarmos a pessoas, que não tinham que ser necessariamente amigos ou conhecidos, mas que partilhassem do mesmo gosto, ler. Quando a leitura faz parte do dia a dia, quando se torna um hábito, um vício, é uma atividade muito pessoal, introspetiva, solitária, mas que pode ser desenvolvida e explorada para uma experiência coletiva e social, quando nos sentamos a falar sobre ela. Foi isso que quisemos criar, um local, hora e dia para esticarmos a leitura, que tantas vezes, quando é boa, é difícil de abandonar. Não nos é particularmente complicado conversar, gostamos de nos colocar em volta de uma ...

O sol de Inverno é o que mais consola

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Este mês tínhamos proposto para leitura em conjunto o livro "Eliete", de Dulce Maria Cardoso, curiosas de como seria a escrita desta portuguesa contemporânea, "rapariga" que algumas de nós só conhecíamos de nome. Não sabemos bem se escolhemos mal a obra, ou se apenas o tema deste livro não nos chega ao coração, mas a verdade é que a maioria começou a leitura cheia de entusiasmo, animadas com uma escrita bem conseguida e diferente, mas com o avançar da história, perdemo-nos um pouco numa narrativa excessivamente moderna, no que às relações diz respeito. É abordado o tema das novas formas de encontros românticos, ou não, centrados nas plataformas dos telemóveis, da internet, nomeadamente o Tinder. Nenhuma de nós usa o aplicativo, algumas entendem quem usa, outras apenas se questionam de como pode alguém achar piada a pessoas a duas dimensões, sem cheiro, ou temperatura, ou sons, para se testar a química que é precisa nisto dos relacionamentos e paixões. Tecnologia a m...