Sentir mais, precisa-se!
No interior do Brasil nasce um amor proibido entre dois rapazes, consumado em segredo até à inevitável descoberta que despoleta toda uma série de tragédias, ruturas familiares, e leva o personagem principal, Raimundo, a uma viagem solitária marcada pela vergonha, abandono, enquanto se faz pela vida, pelo ganha pão, longe da terra natal, onde deixa tudo para trás, trazendo apenas com ele a roupa do corpo e uma carta de Cícero, a sua paixão. Numa linguagem simples, rudimentar, que lemos com sotaque, acompanhamos a descrição dolorosa dos episódios da vida de um homossexual, que nunca se despediu de quem amava, nem soube que destino o mesmo tivera, pois por muito que quisesse descobrir, Raimundo era analfabeto e a carta manteve-se fechada no seu bolso durante décadas. A ironia da sua tragédia é aumentada neste pormenor, que o autor explora de forma brilhante, levando Raimundo a uma escola de adultos, já em avançada idade, para finalmente aprender a ler e escrever. Num tempo de retrocessos sociais, como os que começamos a assistir, ler uma história crua e dolorosa como a que Stênio Gardel nos conta, deixa-nos uma angústia grande, mas talvez seja necessário começarmos coletivamente a sentir mais, pois a apatia generalizada é sempre aproveitada por quem anda à espreita de uma brecha, de um momento, para impor ideologias desumanas, bafientas. Pessoas perigosas que guardam nos seus armários segredos, culpas, medos, ódio, ignorância e, sem saber como se livrarem deles, atacam o próximo, mesmo que este não tenha qualquer interesse em abrir as portas alheias, apenas se limite a viver.
Para a próxima tertúlia propomos a obra "Debaixo de Água" de Tara Menon


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