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A porta, o Museu e uma livraria café junto ao Lis

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 Viver sem telemóvel e o acesso ao mundo digital em tempo real é hoje em dia tão difícil que já inspira eventos temáticos para nos relembrarmos de como era a vida há 20 anos atrás. Não foi assim há tanto tempo que ainda usávamos o telefone fixo, para sermos honestos, a maioria de nós não cresceu com este aparelho no bolso, e só estamos viciados nele porque se tornou num conjunto de vários acessórios num só: telefone, relógio, correio eletrónico, agenda, etc. É prático, leve, pequeno e ainda possibilita distrair a cabeça a "rebentar bolhinhas coloridas" enquanto entramos em modo zen, alheados ao que nos rodeia. Superficialmente é só vantagens, mas talvez estejamos a cair nas teias do mundo demasiado facilitado e rápido. Podemos responder a um email importante enquanto esperamos no meio do trânsito, mas porquê levar o trabalho para aqueles momentos fora do horário estipulado e pago para o fazer? Não poupamos tempo, apenas o usamos de forma errada, pois se fizéssemos crochet ou ...

Um livro pequeno é sempre de desconfiar!

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Quando se começa a ler o "Caruncho" de Layla Martínez, um livro pequenino, que aparenta ser rápido, ficamos moídas com a escrita dela. Nenhuma frase é leve, ou simples, umas vezes o conteúdo é duro, e quando não é, a autora baralha-nos com a pontuação ou a falta dela, como se nos estivesse a enfeitiçar com um "amarranço" de nós e magia negra. Foi difícil, negro, mas valeu a pena, porque o nosso objetivo é expormos o nosso gosto pela leitura a livros que normalmente não compraríamos, ou se o fizéssemos por engano, não passaríamos da primeira página. O que Layla Martínez faz é extraordinariamente bem feito, porque nos transforma em pequenos insetos perdidos um pedaço de madeira, confusos com a direção, mas ávidos de carcomer e resistir, face a uma história horrível, com protagonistas detestáveis, sem finais felizes. Vilões emparedados, mortos em agonia, maldições, transes, ódio, cuspidelas de vingança, numa Espanha rural onde a vida de quatro mulheres de uma família p...

In Vino Veritas

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Ontem estivemos reunidas numa grande roda, com quase todo o grupo presente, o que é sempre muito divertido, pois toda a gente sabe que uma Tertúlia só se alcança, na verdadeira acepção da palavra, quando há muitas vozes e energias juntas. As mais faladoras ganham embalo para os seus discursos e opiniões, as mais caladas apreciam muitas opiniões diferentes e quem tem dom para o humor, diverte-se e diverte. Muita dessa energia foi gasta a analisar o ator Pedro Lamares, que esteve na Lousã há pouco tempo a dizer poemas, para regozijo de muitas e muitos. Quase todas fomos assistir ao seu espetáculo, que consiste numa cadeira e mesa altas, um microfone, uns livros e uma garrafa de vinho tinto, e claro, um ator que mistura Jorge de Sena, com Pessoa e muitos outros, e nos faz realmente conseguir apreciar alguns poemas que de outra forma, se fossem lidos por nós, não seriam a mesma coisa. Ele consegue de facto dar uma lição de Poesia, apenas porque lê, enquanto ator, em voz alta, e enerva-se, ...

Sete anos, uma ninfomaníaca, bolo de noz e maçã e uma mesa pequena demais

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  É verdade, já se passaram sete anos, desde que nos juntámos a primeira vez, no dia 26 de março de 2017. Iniciámos as nossas tertúlias com a polémica do livro "impróprio" para o primeiro ciclo, "O nosso reino", de Valter Hugo Mãe. Na altura houve uma grande controvérsia, movida por alguns encarregados de educação que se insurgiram com o conteúdo de duas ou três linhas dentro de uma obra proposta no Plano Nacional de Leitura. Um dos personagens dizia coisas que os seus filhos ainda não tinham ouvido, e seria muito complicado para aqueles pais explicar aos seus rebentos o vernáculo utilizado... se algum dia os filhos se dessem ao trabalho de ler o livro em causa, o que nós duvidamos, já que a maioria das crianças nem as obras obrigatórias da disciplina de Português lê... Polémicas à parte, o livro é muito bom e foi o ponto de partida para os nossos encontros mais ou menos mensais, onde falamos de muita coisa, bebemos um chá e por vezes, deliciamo-nos com um ou outro ...

A Luz e a Escuridão

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 Não há outra forma de conhecer a Luz, senão com Escuridão. São dois estados indissociáveis, como a tristeza e a alegria, a dor e o prazer. Estar sempre num, é esquecer o outro, que dá o sentido ao primeiro, e o engole. Saltar de um para o outro, sem viver nenhum durante um tempo, é nunca chegar a ter tempo de os experimentar, de os compreender, o que nos torna inexperientes. O segredo estará no equilíbrio, talvez, na forma como nos permitimos permanecer na escuridão, para percebermos a Luz, e vice-versa. No livro do mês, "Deus na Escuridão", este exercício é feito de forma poética, como o Valter Hugo Mãe tão bem escreve. Uma lição de Humanidade, de completa aceitação da escuridão que é uma vida e como ela pode ser tornada em luz, através do Amor. Fraternal, maternal, simples e genuíno, porque é manifestado por pessoas simples, genuínas, que nos aquecem o coração. A simplicidade com que todos nascemos, somos carregados no colo, e que se perde muitas vezes pelo caminho, princi...

A Bíblia que todos temos numa prateleira

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  O livro deste mês é um daqueles achados que dificilmente nos chega às mãos, por ser de um autor pouco traduzido para o português, para nós quase desconhecido. Temos a sorte de, de vez em quando, sermos inspiradas pelo guru literário de uma das fundadoras deste grupo de leitura, que desencanta estas pérolas, sabe-se lá de onde. Não é uma obra extensa, ou maçuda, mas exige à partida algum trabalho de casa, para ser completamente compreendida. Ou isso, ou um grande conhecimento histórico político da Europa, porque só nos fará sentido a personagem se a conseguirmos contextualizar. O autor  Péter Nádas, apresenta-nos um rapaz, que nos parece a entrar na puberdade, húngaro, que vive nos anos 50 com a família: pai, mãe, avó e avô. Começa a história com um acontecimento brutal, que nos deixa ligeiramente apreensivas quanto à saúde mental do garoto, e continua com um desencadear de factos que nos são particularmente incómodos e estranhos. Gyurika é cruel, impulsivo, vingativo, medros...

Nada é mais urgente que uma bexiga a rebentar

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A escolha do livro para leitura em Novembro, "Sete anos bons", foi intencionalmente feita pela atualidade dos acontecimentos no Médio Oriente, nomeadamente o conflito entre a Palestina e Israel. O autor israelita Etgar Keret, contemporâneo e nascido e criado em Israel, mostrou-nos um pouco da sua realidade enquanto judeu moderado, pai e marido, escritor de profissão, que utiliza os primeiros sete anos da vida do seu filho para nos contextualizar a sua vida, a visão que tem do seu mundo, que nos parece fechado numa redoma muito própria, uma realidade quase distópica para nós, que só vemos as guerras pela televisão e vivemos uma religião pagã, não perdemos muito tempo a pensar nas questões bíblicas profundas. Quando Etgar escreveu este livro não tinha ainda sido declarada guerra de Israel contra o Hamas, mas havia mísseis esporádicos que param o dia a dia da população em Telavive, que cancelam aulas, que obrigam todos a fechar-se como os ouriços enquanto o som de estrondo não p...