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In Vino Veritas

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Ontem estivemos reunidas numa grande roda, com quase todo o grupo presente, o que é sempre muito divertido, pois toda a gente sabe que uma Tertúlia só se alcança, na verdadeira acepção da palavra, quando há muitas vozes e energias juntas. As mais faladoras ganham embalo para os seus discursos e opiniões, as mais caladas apreciam muitas opiniões diferentes e quem tem dom para o humor, diverte-se e diverte. Muita dessa energia foi gasta a analisar o ator Pedro Lamares, que esteve na Lousã há pouco tempo a dizer poemas, para regozijo de muitas e muitos. Quase todas fomos assistir ao seu espetáculo, que consiste numa cadeira e mesa altas, um microfone, uns livros e uma garrafa de vinho tinto, e claro, um ator que mistura Jorge de Sena, com Pessoa e muitos outros, e nos faz realmente conseguir apreciar alguns poemas que de outra forma, se fossem lidos por nós, não seriam a mesma coisa. Ele consegue de facto dar uma lição de Poesia, apenas porque lê, enquanto ator, em voz alta, e enerva-se, ...

Sete anos, uma ninfomaníaca, bolo de noz e maçã e uma mesa pequena demais

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  É verdade, já se passaram sete anos, desde que nos juntámos a primeira vez, no dia 26 de março de 2017. Iniciámos as nossas tertúlias com a polémica do livro "impróprio" para o primeiro ciclo, "O nosso reino", de Valter Hugo Mãe. Na altura houve uma grande controvérsia, movida por alguns encarregados de educação que se insurgiram com o conteúdo de duas ou três linhas dentro de uma obra proposta no Plano Nacional de Leitura. Um dos personagens dizia coisas que os seus filhos ainda não tinham ouvido, e seria muito complicado para aqueles pais explicar aos seus rebentos o vernáculo utilizado... se algum dia os filhos se dessem ao trabalho de ler o livro em causa, o que nós duvidamos, já que a maioria das crianças nem as obras obrigatórias da disciplina de Português lê... Polémicas à parte, o livro é muito bom e foi o ponto de partida para os nossos encontros mais ou menos mensais, onde falamos de muita coisa, bebemos um chá e por vezes, deliciamo-nos com um ou outro ...

A Luz e a Escuridão

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 Não há outra forma de conhecer a Luz, senão com Escuridão. São dois estados indissociáveis, como a tristeza e a alegria, a dor e o prazer. Estar sempre num, é esquecer o outro, que dá o sentido ao primeiro, e o engole. Saltar de um para o outro, sem viver nenhum durante um tempo, é nunca chegar a ter tempo de os experimentar, de os compreender, o que nos torna inexperientes. O segredo estará no equilíbrio, talvez, na forma como nos permitimos permanecer na escuridão, para percebermos a Luz, e vice-versa. No livro do mês, "Deus na Escuridão", este exercício é feito de forma poética, como o Valter Hugo Mãe tão bem escreve. Uma lição de Humanidade, de completa aceitação da escuridão que é uma vida e como ela pode ser tornada em luz, através do Amor. Fraternal, maternal, simples e genuíno, porque é manifestado por pessoas simples, genuínas, que nos aquecem o coração. A simplicidade com que todos nascemos, somos carregados no colo, e que se perde muitas vezes pelo caminho, princi...

A Bíblia que todos temos numa prateleira

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  O livro deste mês é um daqueles achados que dificilmente nos chega às mãos, por ser de um autor pouco traduzido para o português, para nós quase desconhecido. Temos a sorte de, de vez em quando, sermos inspiradas pelo guru literário de uma das fundadoras deste grupo de leitura, que desencanta estas pérolas, sabe-se lá de onde. Não é uma obra extensa, ou maçuda, mas exige à partida algum trabalho de casa, para ser completamente compreendida. Ou isso, ou um grande conhecimento histórico político da Europa, porque só nos fará sentido a personagem se a conseguirmos contextualizar. O autor  Péter Nádas, apresenta-nos um rapaz, que nos parece a entrar na puberdade, húngaro, que vive nos anos 50 com a família: pai, mãe, avó e avô. Começa a história com um acontecimento brutal, que nos deixa ligeiramente apreensivas quanto à saúde mental do garoto, e continua com um desencadear de factos que nos são particularmente incómodos e estranhos. Gyurika é cruel, impulsivo, vingativo, medros...

Nada é mais urgente que uma bexiga a rebentar

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A escolha do livro para leitura em Novembro, "Sete anos bons", foi intencionalmente feita pela atualidade dos acontecimentos no Médio Oriente, nomeadamente o conflito entre a Palestina e Israel. O autor israelita Etgar Keret, contemporâneo e nascido e criado em Israel, mostrou-nos um pouco da sua realidade enquanto judeu moderado, pai e marido, escritor de profissão, que utiliza os primeiros sete anos da vida do seu filho para nos contextualizar a sua vida, a visão que tem do seu mundo, que nos parece fechado numa redoma muito própria, uma realidade quase distópica para nós, que só vemos as guerras pela televisão e vivemos uma religião pagã, não perdemos muito tempo a pensar nas questões bíblicas profundas. Quando Etgar escreveu este livro não tinha ainda sido declarada guerra de Israel contra o Hamas, mas havia mísseis esporádicos que param o dia a dia da população em Telavive, que cancelam aulas, que obrigam todos a fechar-se como os ouriços enquanto o som de estrondo não p...

O Alzheimer da Humanidade

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  O domingo é um dia agridoce, que dá com uma mão e tira com a outra. Deixa-nos sentar no sofá e fazer ronha, mas toca-nos no ombro quando estamos prestes a passar pelas brasas e sussurra-nos ao ouvido: "amanhã é segunda!" Se não tivermos cuidado, caímos num estado de ansiedade e nostalgias profundas, sem conseguirmos aproveitar a pausa semanal, só preocupados com o som do despertador do dia seguinte, que tocará sempre cedo demais e tirar-nos-á da cama, sem piedade. Mas quando ao domingo calha a nossa tertúlia, a tarde fica mais bonita e a promessa do início da semana torna-se mais leve. Pelo menos, é assim que me sinto, tomando a liberdade de falar por todas. Chegamos com os sacos carregados de livros, dispomos tudo na mesinha e antes de atacar o livro do mês com elogios ou lamentos, falamos do que andámos a ler paralelamente, do que encontrámos lá nas nossas prateleiras, do que nos sugeriram aqui e ali, certas de que o público em causa tem o mesmo interesse. E por falar em ...

Um Outono a impor-se

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  Ontem fomos "tertuliar" sob um Outono que parece querer impor-se ao Verão à força. Chuvadas batidas a vento que molham tudo e todos, a mostrar ao calor excessivo dos últimos tempos quem manda. Foi assim, a correr do carro para a Pousada da Juventude, que lá nos conseguimos juntar para falar sobre Milan Kundera e a sua "Valsa do Adeus". Todas adorámos o livro, e achamos que é impossível não se gostar de uma boa valsa, liderada por um homem que conhece os compassos e nos vai alimentando o ritmo, fazendo-nos rir com o seu humor tão peculiar, por vezes disparatado, outras vezes inteligente, mostrando-nos como um intelectual pode ser dançarino. Uma obra indiscutivelmente bem conseguida, e que revela o Kundera mais descontraído mas ao mesmo tempo enérgico, que se vai divertindo ao longo da escrita e que no final deixa escapar o seu lado mais impaciente e termina a dança repentinamente, com uma conclusão da trama mais apressada que o restante livro. Estaria ele farto de ...