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O Alzheimer da Humanidade

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  O domingo é um dia agridoce, que dá com uma mão e tira com a outra. Deixa-nos sentar no sofá e fazer ronha, mas toca-nos no ombro quando estamos prestes a passar pelas brasas e sussurra-nos ao ouvido: "amanhã é segunda!" Se não tivermos cuidado, caímos num estado de ansiedade e nostalgias profundas, sem conseguirmos aproveitar a pausa semanal, só preocupados com o som do despertador do dia seguinte, que tocará sempre cedo demais e tirar-nos-á da cama, sem piedade. Mas quando ao domingo calha a nossa tertúlia, a tarde fica mais bonita e a promessa do início da semana torna-se mais leve. Pelo menos, é assim que me sinto, tomando a liberdade de falar por todas. Chegamos com os sacos carregados de livros, dispomos tudo na mesinha e antes de atacar o livro do mês com elogios ou lamentos, falamos do que andámos a ler paralelamente, do que encontrámos lá nas nossas prateleiras, do que nos sugeriram aqui e ali, certas de que o público em causa tem o mesmo interesse. E por falar em ...

Um Outono a impor-se

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  Ontem fomos "tertuliar" sob um Outono que parece querer impor-se ao Verão à força. Chuvadas batidas a vento que molham tudo e todos, a mostrar ao calor excessivo dos últimos tempos quem manda. Foi assim, a correr do carro para a Pousada da Juventude, que lá nos conseguimos juntar para falar sobre Milan Kundera e a sua "Valsa do Adeus". Todas adorámos o livro, e achamos que é impossível não se gostar de uma boa valsa, liderada por um homem que conhece os compassos e nos vai alimentando o ritmo, fazendo-nos rir com o seu humor tão peculiar, por vezes disparatado, outras vezes inteligente, mostrando-nos como um intelectual pode ser dançarino. Uma obra indiscutivelmente bem conseguida, e que revela o Kundera mais descontraído mas ao mesmo tempo enérgico, que se vai divertindo ao longo da escrita e que no final deixa escapar o seu lado mais impaciente e termina a dança repentinamente, com uma conclusão da trama mais apressada que o restante livro. Estaria ele farto de ...

A playlist da "gorda"

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 Ontem estivemos novamente reunidas na Pousada da Juventude da Lousã para mais uma hora e pouco de conversa fiada e sugestões de leitura, com a banda sonora da playlist sugerida no livro do mês, "A Gorda", da escritora portuguesa Isabela Figueiredo. Uma mistura de estilos e sonoridades que nos levaram desde Nina Simone a Xutos e Pontapés, sem que isso nos parecesse estranho ou descabido, uma linha condutora para as nossas divagações, ora sérias ora disparatadas. No livro sugerido para Julho houve um consenso quase generalizado, de obra fácil e descomprometida, mas que não surpreendeu a maioria que leu. A história ligeiramente autobiográfica de uma mulher que sendo gorda, faz uma operação para reduzir o estômago, emagrece 40 quilos, mas descobre que o ser-se gorda é para sempre, principalmente na sua cabeça. Perde bastante massa corporal, experiencia uma mudança drástica fisicamente, mas a cabeça fica lá, nas roupas largas e excessivamente grandes, nas frustrações e complexos ...

Se isto é um homem, queremos ser mulher

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  O livro que tínhamos proposto para leitura durante o mês de Maio foi um daqueles difíceis e incómodos, que nenhuma de nós conseguiu ler de uma assentada só. "Se isto é um homem" do Primo Levi, é bastante conhecido pela densidade do tema, um relato na primeira pessoa de memórias vividas num campo de extermínio nazi na Alemanha, e consegue sempre chocar, por muito que os anos passem. Íamos lendo umas páginas, parávamos para respirar e voltar à nossa feliz realidade, porque é difícil imaginar que o que lemos aconteceu, e não foi um produto da criatividade do autor. É fisicamente perturbador deixarmo-nos levar pela narrativa de um homem que vai contando o que viveu desde que foi apanhado pela polícia que caçava etnias, raças, nacionalidades, deficientes, e toda uma lista de indesejáveis que um Sistema político decidiu definir como alvos a abater. Pessoas que sem qualquer possibilidade de fuga ou julgamento foram colocadas em vagões de comboio e despejadas num local que para nós...

O Castelo onde mora cada um de nós

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             Este domingo encerrámos o mês de abril com mais uma tertúlia na Pousada da Juventude da Lousã e um livro dedicado à fantasia de um dos locais turísticos mais misteriosos da nossa vila, o Castelo da Lousã. Visitado por muitos curiosos, é um postal da nossa terra, que nos transporta para grandes exercícios de imaginação, quando o observamos. O local onde foi erguido não se assemelha a nenhum outro dos estratégicos pontos onde normalmente construíam castelos, que serviam de defesa de um território, e de onde se podia ver com distância os possíveis inimigos de outros tempos de conquistas e reconquistas. O Castelo da Lousã não se distingue do centro da vila, temos que entrar pelos caminhos circulares da serra para o encontrar, e obriga-nos a deduzir que quando foi pensado, teria sido para ficar secreto a quem passasse pela região. Esta particularidade é a sua característica mais importante, o ser escondido. Ninguém esconde uma torre para preven...

Meia dúzia de anos e muitas tertúlias

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  Ontem, dia 26 de março, celebrámos os seis anos de existência deste nosso grupo informal de leitoras, que desde 2017 se junta uma vez por mês para beber um chá, um café e conversar sobre os livros que se vão lendo, tendo uma obra proposta mensalmente, que serve basicamente de desculpa para o efeito. O nosso objetivo, quando decidimos formar este grupo, era só ter umas horas por mês para nos juntarmos a pessoas, que não tinham que ser necessariamente amigos ou conhecidos, mas que partilhassem do mesmo gosto, ler. Quando a leitura faz parte do dia a dia, quando se torna um hábito, um vício, é uma atividade muito pessoal, introspetiva, solitária, mas que pode ser desenvolvida e explorada para uma experiência coletiva e social, quando nos sentamos a falar sobre ela. Foi isso que quisemos criar, um local, hora e dia para esticarmos a leitura, que tantas vezes, quando é boa, é difícil de abandonar. Não nos é particularmente complicado conversar, gostamos de nos colocar em volta de uma ...

O sol de Inverno é o que mais consola

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Este mês tínhamos proposto para leitura em conjunto o livro "Eliete", de Dulce Maria Cardoso, curiosas de como seria a escrita desta portuguesa contemporânea, "rapariga" que algumas de nós só conhecíamos de nome. Não sabemos bem se escolhemos mal a obra, ou se apenas o tema deste livro não nos chega ao coração, mas a verdade é que a maioria começou a leitura cheia de entusiasmo, animadas com uma escrita bem conseguida e diferente, mas com o avançar da história, perdemo-nos um pouco numa narrativa excessivamente moderna, no que às relações diz respeito. É abordado o tema das novas formas de encontros românticos, ou não, centrados nas plataformas dos telemóveis, da internet, nomeadamente o Tinder. Nenhuma de nós usa o aplicativo, algumas entendem quem usa, outras apenas se questionam de como pode alguém achar piada a pessoas a duas dimensões, sem cheiro, ou temperatura, ou sons, para se testar a química que é precisa nisto dos relacionamentos e paixões. Tecnologia a m...