Mensagens

Meia dúzia de anos e muitas tertúlias

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  Ontem, dia 26 de março, celebrámos os seis anos de existência deste nosso grupo informal de leitoras, que desde 2017 se junta uma vez por mês para beber um chá, um café e conversar sobre os livros que se vão lendo, tendo uma obra proposta mensalmente, que serve basicamente de desculpa para o efeito. O nosso objetivo, quando decidimos formar este grupo, era só ter umas horas por mês para nos juntarmos a pessoas, que não tinham que ser necessariamente amigos ou conhecidos, mas que partilhassem do mesmo gosto, ler. Quando a leitura faz parte do dia a dia, quando se torna um hábito, um vício, é uma atividade muito pessoal, introspetiva, solitária, mas que pode ser desenvolvida e explorada para uma experiência coletiva e social, quando nos sentamos a falar sobre ela. Foi isso que quisemos criar, um local, hora e dia para esticarmos a leitura, que tantas vezes, quando é boa, é difícil de abandonar. Não nos é particularmente complicado conversar, gostamos de nos colocar em volta de uma ...

O sol de Inverno é o que mais consola

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Este mês tínhamos proposto para leitura em conjunto o livro "Eliete", de Dulce Maria Cardoso, curiosas de como seria a escrita desta portuguesa contemporânea, "rapariga" que algumas de nós só conhecíamos de nome. Não sabemos bem se escolhemos mal a obra, ou se apenas o tema deste livro não nos chega ao coração, mas a verdade é que a maioria começou a leitura cheia de entusiasmo, animadas com uma escrita bem conseguida e diferente, mas com o avançar da história, perdemo-nos um pouco numa narrativa excessivamente moderna, no que às relações diz respeito. É abordado o tema das novas formas de encontros românticos, ou não, centrados nas plataformas dos telemóveis, da internet, nomeadamente o Tinder. Nenhuma de nós usa o aplicativo, algumas entendem quem usa, outras apenas se questionam de como pode alguém achar piada a pessoas a duas dimensões, sem cheiro, ou temperatura, ou sons, para se testar a química que é precisa nisto dos relacionamentos e paixões. Tecnologia a m...

A transconfusão!

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 Ontem estivemos na Pousada da Juventude da Lousã, no bar/sala de convívio, onde aproveitámos os sofás confortáveis e o chá, que desta vez não faltou para aquecer a conversa, que por si só já não precisava de esquentamento. O livro que esteve proposto para o grupo foi um dos últimos best-sellers das livrarias nacionais, "Os sete maridos de Evelyn Hugo", que romanceia a vida de uma mulher bissexual, no meio artístico e rico de Hollywood. A trama desenvolve-se nas relações, amores e amizades que povoam sete casamentos, e tudo o que isso implica, sendo que a Evelyn ama verdadeiramente uma mulher, mas vai casando com homens, vivendo toda a espécie de relações e dramas, tudo o que de bom e mau existe num casamento, na junção amorosa de duas pessoas, sem esquecer a violência doméstica. Refletimos um pouco no facto de este livro, com uma história nada atual das relações humanas pois é passado em meados do século XX, ser tão popular entre os jovens na atualidade, e apenas conseguimos...

O frio que nos aquece

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Jon Fosse, um escritor do norte, daqueles recantos longínquos e frios, foi o autor escolhido para a leitura de novembro, com a obra "Trilogia". O título simples e seco não pode ter sido escolhido ao acaso, pois exemplifica na perfeição o estilo literário deste autor, que à boa maneira nórdica conta uma história dura, densa, sem grandes floreados linguísticos, quase sem pontuação, que se desenvolve de forma angustiante, como uma poesia macabra. Um casal jovem vive uma situação extrema, onde o abandono, o frio, a fome, o desespero por encontrar um abrigo nos revela a falta de compaixão e humanidade da comunidade onde vivem, e nos obriga a um exercício moral de compreensão e absolvição, quando o personagem mata a sangue frio para conseguir proteger a mulher que ama e o filho que os dois esperam a qualquer momento. O dilema que nos é trazido pelo autor é de difícil digestão, de tal forma que algumas de nós iam terminando o livro ainda a duvidar de que Asle realmente tivesse comet...

O Acontecimento de se ser Mulher

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  O nosso pequeno grupo informal de leitura foi desafiado pela Vereadora da Cultura da CML, a Drª Henriqueta Oliveira, para realizar uma Tertúlia extra dedicada a Annie Ernaux, a vencedora do prémio Nobel de Literatura em 2022. Uma responsabilidade para quem nunca tinha lido nada da autora, mas que aceitámos, em troca de um chá, que se revelou num belo e recheado lanche de fim de dia, um pouco à semelhança da escritora, que nos era desconhecida, mas nos surpreendeu pela enorme e complexa vida de uma mulher amplamente premiada pelas suas obras e com uma história de vida marcada pela superação, crescimento, dedicação à causa do feminismo e igualdade de género. Para a maioria de nós, hoje dia, estes são chavões banais no discurso atual, e não nos causa qualquer estranheza as mulheres exigirem mais, reclamarem direitos, lutarem pelo que acreditam, mas para Annie Ernaux, nascida no pós-guerra, numa família humilde, a primeira no seu contexto familiar a frequentar o ensino superior, a vi...

A Casmurrice de Assis

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  Ontem juntámo-nos para mais uma Tertúlia, numa noite que mais parecia inverno. Frio, nevoeiro, escuridão, silêncio pela Lousã, e nós na sala do bar da Pousada da Juventude. Custou-nos sair de casa, muitas já estavam de pijama, mas a casmurrice venceu a preguiça, felizmente! O livro que nos propusemos a ler foi "Dom Casmurro" de Machado de Assis, e todas concordamos que a escolha foi acertada. Normalmente não enveredamos por estas leituras clássicas brasileiras, e gostámos de o fazer. Um livro pequenino, de fácil leitura, mas surpreendente no tema e na estrutura. Há muita gente que compara Assis a Eça, com as devidas diferenças: por serem de épocas semelhantes, por serem ousados na escrita, por nos mostrarem que os homens também pensam e romanceiam as dinâmicas do amor entre o homem e a mulher. Até no nome pequeno e simples nos fazem comparar um e outro, mas as parecenças ficam por aí. Assis foi pioneiro no Brasil, Eça em Portugal, mas continuamos a gostar mais do "noss...

Livros, saudades e a Anna Karenina que há em nós

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  Ontem finalmente, e depois de muito tempo de pausa nos nossos encontros físicos, conseguimos juntar grande parte do Lousã Book Lovers, Voltámos à esplanada do Parque Carlos Reis, um dos sítios mais agradáveis para se estar no Verão, ou simplesmente quando o tempo está de feição. Chegámos às 19h30 e só saímos já anoitecera, depois das 21h00, e porque ao outro dia tínhamos de acordar cedo, senão ficávamos por ali, a partilhar tudo o que gostamos de partilhar quando nos vemos: o que lemos, as séries a que assistimos, os blogues que seguimos, as notícias locais, as internacionais, as que nos impressionaram. Falou-se de tudo, como se quer, porque à nossa mesa os livros são importantes, mas cada uma tem a sua história e resumo, prontos a dividir com todas. Como uma obra clássica e volumosa, as nossas conversas vão andando à  boleia de uma estrutura, mas divagam, filosofam, criticam, questionam, intervalando com diálogos mais ou menos leves e supérfluos, que toda a grande obra prec...