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O Acontecimento de se ser Mulher

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  O nosso pequeno grupo informal de leitura foi desafiado pela Vereadora da Cultura da CML, a Drª Henriqueta Oliveira, para realizar uma Tertúlia extra dedicada a Annie Ernaux, a vencedora do prémio Nobel de Literatura em 2022. Uma responsabilidade para quem nunca tinha lido nada da autora, mas que aceitámos, em troca de um chá, que se revelou num belo e recheado lanche de fim de dia, um pouco à semelhança da escritora, que nos era desconhecida, mas nos surpreendeu pela enorme e complexa vida de uma mulher amplamente premiada pelas suas obras e com uma história de vida marcada pela superação, crescimento, dedicação à causa do feminismo e igualdade de género. Para a maioria de nós, hoje dia, estes são chavões banais no discurso atual, e não nos causa qualquer estranheza as mulheres exigirem mais, reclamarem direitos, lutarem pelo que acreditam, mas para Annie Ernaux, nascida no pós-guerra, numa família humilde, a primeira no seu contexto familiar a frequentar o ensino superior, a vi...

A Casmurrice de Assis

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  Ontem juntámo-nos para mais uma Tertúlia, numa noite que mais parecia inverno. Frio, nevoeiro, escuridão, silêncio pela Lousã, e nós na sala do bar da Pousada da Juventude. Custou-nos sair de casa, muitas já estavam de pijama, mas a casmurrice venceu a preguiça, felizmente! O livro que nos propusemos a ler foi "Dom Casmurro" de Machado de Assis, e todas concordamos que a escolha foi acertada. Normalmente não enveredamos por estas leituras clássicas brasileiras, e gostámos de o fazer. Um livro pequenino, de fácil leitura, mas surpreendente no tema e na estrutura. Há muita gente que compara Assis a Eça, com as devidas diferenças: por serem de épocas semelhantes, por serem ousados na escrita, por nos mostrarem que os homens também pensam e romanceiam as dinâmicas do amor entre o homem e a mulher. Até no nome pequeno e simples nos fazem comparar um e outro, mas as parecenças ficam por aí. Assis foi pioneiro no Brasil, Eça em Portugal, mas continuamos a gostar mais do "noss...

Livros, saudades e a Anna Karenina que há em nós

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  Ontem finalmente, e depois de muito tempo de pausa nos nossos encontros físicos, conseguimos juntar grande parte do Lousã Book Lovers, Voltámos à esplanada do Parque Carlos Reis, um dos sítios mais agradáveis para se estar no Verão, ou simplesmente quando o tempo está de feição. Chegámos às 19h30 e só saímos já anoitecera, depois das 21h00, e porque ao outro dia tínhamos de acordar cedo, senão ficávamos por ali, a partilhar tudo o que gostamos de partilhar quando nos vemos: o que lemos, as séries a que assistimos, os blogues que seguimos, as notícias locais, as internacionais, as que nos impressionaram. Falou-se de tudo, como se quer, porque à nossa mesa os livros são importantes, mas cada uma tem a sua história e resumo, prontos a dividir com todas. Como uma obra clássica e volumosa, as nossas conversas vão andando à  boleia de uma estrutura, mas divagam, filosofam, criticam, questionam, intervalando com diálogos mais ou menos leves e supérfluos, que toda a grande obra prec...

Robertos, livros perdidos e sangria azul

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  As férias de Verão são sempre uma prova de fogo para os grupos informais. O nosso resiste, mesmo depois de grandes períodos de ociosidade e descanso. Ninguém que gosta de ler abandona o hábito, e geralmente, usam as férias para pegar naquele livro da mesa de cabeceira que teima em não desenvolver. O mais complicado de conciliar são as nossas agendas. Entre enfermeira a trabalhar por turnos, mães de garotada pequena, professoras, Presidente de Junta, psicóloga, para encontrar uma data é sempre uma negociação demorada. Quase tão complicado como encontrar um livro que seja consensual. O que tínhamos proposto, "a doença da felicidade" de Paulo José Miranda, ficou aquém dessa harmonia. Houve quem gostasse, quem odiasse, quem tivesse ficado com um nó na cabeça e desistido. No fundo o livro é muito bom, no sentido em que é um exercício de pensamento que nem toda a gente conseguiria escrever, mas... como qualquer texto que teorize qualquer coisa, ainda por cima, neste caso, que bri...

Tertúlia de Domingo

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  A leitura proposta para Abril foi uma daquelas obras que não dá para serem debatidas a um domingo. Profunda, poética, humana, obriga a uma leitura concentrada, numa combinação perfeita de simplicidade, sentimento e boa escrita. Poucos escritores o fazem, nem todos conseguem, ou gostam, mas José Luís Peixoto já provou ser especialista em deixar nos leitores a marca dos seus livros. Tanto haveria para dizer, sobre a forma como ele conseguiu mostrar-nos o Comendador Rui Nabeiro, com uma intimidade que nos baixa a guarda e nos faz sentir que vivemos em Campo Maior e sempre trabalhámos na Delta. Uma biografia em romance, contada pelo "próprio", tão bem imaginado que nos esquecemos que é o escritor, e não o verdadeiro Rui Nabeiro que escreveram. E como num almoço de domingo, uma tertúlia de domingo faz-nos divagar nos pensamentos, baralha-nos as conversas, como se o entusiasmo de juntar a "família" ao domingo nos tirasse a concentração necessária para discutir literatur...

Cerejeiras em flor

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 Uma boa parte da nossa tertúlia mensal é dedicada às pupilas gustativas. Temos de o admitir. Gostamos de ler, é esse o objectivo deste grupo, mas não dispensamos um chá aromático, uma fatia de bolo, um biscoito, ou no tempo delas, as cerejas. Em 2020 a nossa fornecedora de cerejas negou-nos esse prazer, decidiu fazer quarentena, como o resto do mundo, floriu, mas não deu nem um fruto. Saberia ela que de alguma forma nos seria difícil reunir, por causa da pandemia e das restrições sociais, sendo assim impossível que os seus frutos fossem todos distribuídos e devidamente aproveitados? Nunca o saberemos... Todos tivemos direito a uma pausa no nosso ritmo moderno, e a cerejeira pareceu compreender. Como somos mulheres prevenidas, este ano fomos gabar a beleza das suas flores, recordar o sabor doce das suas cerejas, debaixo da sua copa branca, na esperança de que ela entenda que a vida continua, nada parou, e que contamos com ela daqui a uns tempos. Levámos um bolo, fizemos um chá, cel...

Eça de Queirós, o dia dos Namorados e Zoom

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  No passado dia 14 de fevereiro reunimos novamente em zoom, para falar sobre a obra de janeiro, "A Relíquia", de Eça de Queirós. De vez em quando gostamos de voltar aos clássicos, faz-nos falta regressar à realidade das golas engomadas e rosários fervorosos, viver um bocadinho no tempo em que a comunicação só se fazia presencialmente, e à luz do dia, que as velas dão sono. Se queríamos contactar com alguém, mandávamos um bilhete com antecedência a combinar, dia, hora e esperávamos a resposta. Com sorte, e se nenhum contratempo surgisse, lá se reuniam as pessoas e "tertuliava-se". Devia ser bastante emocionante ter um convívio ou um jantar, um motivo qualquer para ver pessoas, principalmente para as mulheres, que de uma maneira geral, estavam mais recolhidas dentro de casa e não tinham empregos fora de portas. Mas essa emoção das relações não era exclusiva às mulheres, os homens, mais livres e privilegiados, também gozavam, e bem, sempre que podiam. Prova disso são ...