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Livros, saudades e a Anna Karenina que há em nós

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  Ontem finalmente, e depois de muito tempo de pausa nos nossos encontros físicos, conseguimos juntar grande parte do Lousã Book Lovers, Voltámos à esplanada do Parque Carlos Reis, um dos sítios mais agradáveis para se estar no Verão, ou simplesmente quando o tempo está de feição. Chegámos às 19h30 e só saímos já anoitecera, depois das 21h00, e porque ao outro dia tínhamos de acordar cedo, senão ficávamos por ali, a partilhar tudo o que gostamos de partilhar quando nos vemos: o que lemos, as séries a que assistimos, os blogues que seguimos, as notícias locais, as internacionais, as que nos impressionaram. Falou-se de tudo, como se quer, porque à nossa mesa os livros são importantes, mas cada uma tem a sua história e resumo, prontos a dividir com todas. Como uma obra clássica e volumosa, as nossas conversas vão andando à  boleia de uma estrutura, mas divagam, filosofam, criticam, questionam, intervalando com diálogos mais ou menos leves e supérfluos, que toda a grande obra prec...

Robertos, livros perdidos e sangria azul

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  As férias de Verão são sempre uma prova de fogo para os grupos informais. O nosso resiste, mesmo depois de grandes períodos de ociosidade e descanso. Ninguém que gosta de ler abandona o hábito, e geralmente, usam as férias para pegar naquele livro da mesa de cabeceira que teima em não desenvolver. O mais complicado de conciliar são as nossas agendas. Entre enfermeira a trabalhar por turnos, mães de garotada pequena, professoras, Presidente de Junta, psicóloga, para encontrar uma data é sempre uma negociação demorada. Quase tão complicado como encontrar um livro que seja consensual. O que tínhamos proposto, "a doença da felicidade" de Paulo José Miranda, ficou aquém dessa harmonia. Houve quem gostasse, quem odiasse, quem tivesse ficado com um nó na cabeça e desistido. No fundo o livro é muito bom, no sentido em que é um exercício de pensamento que nem toda a gente conseguiria escrever, mas... como qualquer texto que teorize qualquer coisa, ainda por cima, neste caso, que bri...

Tertúlia de Domingo

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  A leitura proposta para Abril foi uma daquelas obras que não dá para serem debatidas a um domingo. Profunda, poética, humana, obriga a uma leitura concentrada, numa combinação perfeita de simplicidade, sentimento e boa escrita. Poucos escritores o fazem, nem todos conseguem, ou gostam, mas José Luís Peixoto já provou ser especialista em deixar nos leitores a marca dos seus livros. Tanto haveria para dizer, sobre a forma como ele conseguiu mostrar-nos o Comendador Rui Nabeiro, com uma intimidade que nos baixa a guarda e nos faz sentir que vivemos em Campo Maior e sempre trabalhámos na Delta. Uma biografia em romance, contada pelo "próprio", tão bem imaginado que nos esquecemos que é o escritor, e não o verdadeiro Rui Nabeiro que escreveram. E como num almoço de domingo, uma tertúlia de domingo faz-nos divagar nos pensamentos, baralha-nos as conversas, como se o entusiasmo de juntar a "família" ao domingo nos tirasse a concentração necessária para discutir literatur...

Cerejeiras em flor

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 Uma boa parte da nossa tertúlia mensal é dedicada às pupilas gustativas. Temos de o admitir. Gostamos de ler, é esse o objectivo deste grupo, mas não dispensamos um chá aromático, uma fatia de bolo, um biscoito, ou no tempo delas, as cerejas. Em 2020 a nossa fornecedora de cerejas negou-nos esse prazer, decidiu fazer quarentena, como o resto do mundo, floriu, mas não deu nem um fruto. Saberia ela que de alguma forma nos seria difícil reunir, por causa da pandemia e das restrições sociais, sendo assim impossível que os seus frutos fossem todos distribuídos e devidamente aproveitados? Nunca o saberemos... Todos tivemos direito a uma pausa no nosso ritmo moderno, e a cerejeira pareceu compreender. Como somos mulheres prevenidas, este ano fomos gabar a beleza das suas flores, recordar o sabor doce das suas cerejas, debaixo da sua copa branca, na esperança de que ela entenda que a vida continua, nada parou, e que contamos com ela daqui a uns tempos. Levámos um bolo, fizemos um chá, cel...

Eça de Queirós, o dia dos Namorados e Zoom

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  No passado dia 14 de fevereiro reunimos novamente em zoom, para falar sobre a obra de janeiro, "A Relíquia", de Eça de Queirós. De vez em quando gostamos de voltar aos clássicos, faz-nos falta regressar à realidade das golas engomadas e rosários fervorosos, viver um bocadinho no tempo em que a comunicação só se fazia presencialmente, e à luz do dia, que as velas dão sono. Se queríamos contactar com alguém, mandávamos um bilhete com antecedência a combinar, dia, hora e esperávamos a resposta. Com sorte, e se nenhum contratempo surgisse, lá se reuniam as pessoas e "tertuliava-se". Devia ser bastante emocionante ter um convívio ou um jantar, um motivo qualquer para ver pessoas, principalmente para as mulheres, que de uma maneira geral, estavam mais recolhidas dentro de casa e não tinham empregos fora de portas. Mas essa emoção das relações não era exclusiva às mulheres, os homens, mais livres e privilegiados, também gozavam, e bem, sempre que podiam. Prova disso são ...

"a máquina de fazer espanhóis" em tertúlia zoom

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  O primeiro livro do nosso "clube" de leitura foi uma obra de Valter Hugo Mãe. Foi uma boa surpresa, para quem ainda não conhecia, começar com um autor português contemporâneo, o que, para qualquer fanático da leitura, significa que haverá muitos anos de novas obras pela frente! Se ao menos o Eça fosse vivo, e escrevesse sobre o Portugal de agora e as suas eternas personagens caricatas... Mas, voltando ao Valter Hugo Mãe, decidimos dedicar Novembro à obra "a máquina de fazer espanhóis". Quem leu, adorou, sem excepções. O tema enternece-nos, por nos ser tão familiar, todos temos parentes, amigos, conhecidos com experiências em viuvez, lares, coisas caricatas, histórias tristes, e invariavelmente, vamos pensando como vai ser a nossa própria história, quando chegar a hora da nossa velhice. No caso do personagem Silva, um barbeiro reformado que perde a esposa de uma vida e se vê "despejado" num lar, há uma revolta justificada que nunca desaparece, mas a trans...

Os rapazes de Nickel

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  O livro proposto para Outubro prometia ser daqueles que ficam na nossa memória. O tema é sempre atual, contemporâneo, importante de debater, a maldade humana, o racismo, a violência, as infâncias partidas que dão origem a adultos com cicatrizes, ou irremediavelmente estragados. Conta a história de um rapaz, negro, nos anos 60, a viver na América do Norte, que nasce já com o destino previsto, e que o cumpre. O azar leva-o ao reformatório para rapazes, e lá, é escrito o último parágrafo da sua vida. Os horrores que são contados só não nos deixam doentes, porque o autor não os explorou, como se calhar devia. Não que sejamos sádicos, nada disso, apenas fica por cumprir o choque que leva a reflexões profundas, absolutamente necessárias nos dias hoje. A linguagem podia ser mais crua, mais pesada, já que na realidade há uma visão adulta e académica da situação, talvez resultado da formação do autor, e quando lemos um romance, queremos veracidade pelo menos na essência dos personagens, s...